Conjuntura Nacional da Situação de Rua na Guatemala
Não se pode falar da situação de rua na Guatemala sem se falar na sua longa história de guerra e repressão. Desde 1492, a Guatemala tem sido governada por uma pequena minoria de imigrantes brancos. Os índios maias, os negros da costa das Caraíbas e os mestiços foram sempre excluídos da economia e do poder político.
Até ao anos 50, o sistema político impôs um apartheid americano. A vitória eleitoral de Jacobo Arbenz prometeu uma mudança a favor dos pobres e dos excluídos, mas a intervenção norte-americana voltou a colocar no poder as tradicionais élites. Frustrados com a impossibilidade de transformação democrática, forças populares e indígenas iniciaram uma revolução, a qual rapidamente se tornou numa das guerras civis mais sangrentas e terríveis da América Latina.
Muitas pessoas refugiaram-se no México, nos Estados Unidos ou na cidade da Guatemala. O país polarizou-se entre forças de esquerda e forças de direita. As forças de direita conseguiram a cooperação de evangélicos conservadores na luta contra a influência da teologia da libertação e da igreja católica.
Além disso, a guerra destruiu a estrutura familiar tradicional dos maias e das populações rurais. A violência política tornou-se parte da vida doméstica. As famílias que antes desempenhavam um papel importante na resistência e na luta contra a pobreza acabaram por se fragmentar por motivos políticos ou porque os seus membros tiveram que se refugiar.
A situação da vida de rua na Guatemala deve ser analisada neste contexto. A maioria das crianças e das famílias de rua que se refugiaram na cidade, fugindo da sua terra e da sua tradicional vida no campo, são de ascendência maia. Muitos esqueceram a sua língua os valores da cultura maia, tendo perdido as suas raízes e a sua identidade.
Em muitos casos, facto que distingue a Guatemala de outros países, as crianças vivem com as suas famílias na rua ou no estiercolero (lixeira) da cidade. Em tais circunstâncias, as ONGs que ajudam as crianças de rua são obrigadas a prestar também serviços a toda a família.
A guerra civil contribuiu, também, para criar outros problemas na vida de rua. Por exemplo, criou uma cultura de violência e exclusão. Os soldados que matavam os guerrilheiros e a população civil no campo, matam agora as crianças. A Casa Alianza documentou centenas de assassinatos de crianças na rua nos últimos anos, a maioria dos quais cometidos por forças de segurança pública.
Muitas pessoas acreditam que a guerra consciencializou politicamente as pessoas das zonas rurais. O que é certo é que as desmotivou de apoiar a sociedade civil e a criação de ONGs, uma vez que estas podem fazer muito pouco frente à democracia fechada que coloca as elites no poder. Isto foi decisivo para muitos intelectuais, dirigentes populares e estudantes saírem do país.
Assim, a Guatemala está privada dos líderes e das garantias necessárias para ajudar de forma sistemática as crianças de rua. Actualmente, as crianças continuam a morrer todos os dias em espaços públicos violentos e o país continua a precisar de uma sociedade civil comprometida com o fim da situação de rua.