Associação Curumins
Curumin é uma palavra do idioma tupi-guarani que significa meninos e meninas, e a Associação Curumins aproveita todos os aspectos da cultura brasileira, desde o indígena até o hip-hop, para ajudar os curumins de Fortaleza. É um programa que dá ênfase ao uso da criatividade e à inovação, e assim tem atraído a atenção de um grande número de meninos e meninas de rua.
O aspecto mais chamativo quando uma pessoa entra no pátio dos curumins é o equipamento de skate: rampas, obstáculos e dezenas de crianças fazendo acrobacias com suas pranchas de skate. Mas se está claro que atrai as crianças de rua, pode-se dizer que cumpre com uma função pedagógico-social? Primeiro, é preciso entender o contexto social de rua em Fortaleza: quase todos os meninos e meninas que vivem nas ruas, vivem em Beira-Mar, uma zona rica que fica próxima da praia. Lá, há grupos de crianças da classe alta que praticam skate, e as crianças de rua se sentem fortemente excluídas dessa atividade recreativa.
Dessa forma, o skate é uma atividade realizada na rua, mas que não é de rua. A inclusão nesse esporte oferece a possibilidade de inclusão social em um espaço transitório entre a rua e a casa. Igualmente importante, é saber que o skate tem uma ideologia e uma imagem rebelde, pois consegue que meninos e meninas possam manifestar sua oposição a uma cultura que lhes tem excluído. No entanto, Curumins sempre lembra algo fundamental: Não formamos skatistas. Formamos pessoas.
Outras oficinas de Curumins também partem dessa perspectiva: atividades rebeldes que servem de transição entre a rua e uma nova vida. Há teatro de rua (com palhaços e comédia), jogos de rua (pipas, futebol, vários jogos), e uma banda de lata (tambores feitos com latas, garrafas, barris etc). Os grupos que desenvolvem essas atividades sempre apresentam suas obras ao público: o grupo de teatro vai as estações de ônibus para ensinar sobre a vida de rua e a cultura urbana. A banda de lata toca na rua e em eventos públicos, como reuniões políticas e espetáculos esportivos.
Ceará, o estado do qual Fortaleza é a capital, é famoso no Brasil por ser o ninho do humor e da comédia. Por isso, todas as atividades das crianças incorporam brincadeiras e palhaços. Igualmente interessante é o humor que se usa na abordagem de rua: um educador se disfarça de palhaço e circula pelas ruas de Beira-Mar com uma vitrola e um violão. Canta, conta piadas e convida as crianças para participarem de uma reunião. Na reunião, todos os meninos e meninas podem falar ao microfone, e assim se sentem reconhecidos. Depois, os educadores falam sobre Curumins e ensinam coisas importantes para viver e sair das ruas.
Para melhorar a qualidade dos serviços prestados por todas as ONGs e OGs que trabalham nas ruas de Fortaleza (são 10), Curumins promoveu um projeto de Abordagem Coletiva, no qual as equipes de rua de várias ONGs circulam juntas. Existiram algumas tensões entre modelos e filosofias, mas agora, todos os programas se encontram na mesma página, e as crianças sabem qual programa será melhor para elas.
Outro projeto criativo é o de modelagem para meninas de rua e meninas prostitutas. Uma pesquisa comprovou que a necessidade econômica era um fator importante no processo que leva à exploração sexual, mas houve algo mais importante: as meninas das favelas se sentiam feias dentro da cultura brasileira, na qual há poucas negras que são apresentadas como belas, mas há muitos homens europeus que vêm à Fortaleza para fazer sexo com negras (Fortaleza e Recife, são dois dos centros de turismo sexual a nível mundial). Por isso, sentir-se desejada por homens ricos era um forte motivo para exercer a prostituição. Há alguns casos de homens que se casaram com prostitutas e as levaram para a Alemanha ou Holanda, o que oferece um sonho de uma possível saída da favela.
Assim, Curumins usa a modelagem para aumentar a auto-estima e o senso de beleza das meninas. Elas desenham e fazem suas próprias roupas e recebem treinamento em maquiagem e modelagem profissional (uma diretora de Curumins conhece bem este mundo). Quando se sentem belas, ficam menos expostas ao risco de serem exploradas.
Curumins começou como um projeto de Terra dos Homens - Suiça, que veio ao Ceará nos anos 80 para ajudar durante uma emergência de fome e seca. Depois desse trabalho, se deu conta da grande quantidade de meninos e meninas que trabalhavam ou viviam nas ruas de Fortaleza, e fez um projeto para lhes ajudar. Curumins surgiu desse projeto e, em 1996, se tornou independente, embora sempre receba ajuda e assessoria de Terra dos Homens.
Com a ajuda de um professor universitário suíço e um pesquisador brasileiro, Curumins desenvolveu um sistema bem interessante de diagnóstico e avaliação, o Sistema Criança-Rua. Os educadores observam os meninos e meninas em todas as suas atividades, e colocam suas observações em oito categorias:
- Espaço: Onde vive? Por quanto tempo? Qual é a conjuntura deste espaço?
- Tempo: Idade da criança e duração da vivência na rua. Duração do uso de drogas.
- Socialização: Qual é seu grupo de referência? Quais são suas normas? Ainda é a família?
- Sociabilidade: Qual é sua relação com os grupos de rua? Com seus companheiros? Com os adultos?
- Dinâmica: O que faz na rua? Como ganha dinheiro? Por quê?
- Identidade: Como se define? Como se vê? Qual é sua relação com o educador?
- Motivação: O que motiva a criança? Quais são seus desejos? Como avalia sua vida?
- Gênero: Como se define? Como se relaciona com seu gênero? Com o outro?
Depois de organizar os vínculos entre esses sistemas, os educadores e as crianças podem visualizar um projeto de vida e um caminho para sair da rua. Os educadores têm uma estratégia interessante para falar sobre estes temas com as crianças: possuem uma série de pinturas e figuras, e as crianças representam suas vidas através dessas pinturas. Para falar do futuro, os educadores costumam perguntar: Como quer que sua vida seja em 15 anos? Curumins acaba de terminar uma profunda pesquisa sobre o uso desse jogo pedagógico, e irá implementá-lo em 2003.
Para minimizar a necessidade do trabalho infantil e da situação de rua, Curumins ajuda as famílias a encontrar formas de renda dignas. Através de um convênio com o Clube de Jovens Empresários, capacita as mães em administração e contabilidade. Atualmente, todas formaram uma cooperativa que vende comida aos trabalhadores em projetos da construção civil. A abordagem com as famílias segue uma filosofia poderosa: uma educadora diz, Eu pergunto a minha filha, o que é que você quer, filhinha?, e ela diz que quer uma Barbie. Pergunto o mesmo aos filhos dessas mães e eles dizem, quero comprar uma casa nova para minha mãe, ou quero que ela não tenha que trabalhar tanto. Eles as amam tanto, mas... o que podemos fazer para realizar estes sonhos?
As crianças só podem ficam em Curumins por um ano (com exceção das crianças que não têm famílias, e que podem ir para um lar no campo), pois há um trabalho constante para encaminhá-los para outros programas em seus próprios bairros. Todas as crianças participam de várias oficinas, e seus educadores procuram encontrar um programa local que corresponda aos gostos de cada criança.
Com a ajuda de Terra dos Homens, Curumins implementou um dos sistemas de administração e contabilidade mais eficiente e transparente que Shine a Light conhece, e está disposto a ajudar outros programas neste campo. Mande um e-mail para Celso (endereço abaixo). Este sistema administrativo é o que abre a possibilidade para desenvolver tanta criatividade, porque um processo democrático insiste em que todas as vozes sejam ouvidas. Tais vozes são sempre criativas, e Curumins procura realizar suas idéias.
Associação Curumins
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85 263 2172
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Contactos: Raimundo Coelho de Almeida Filho, o Flor Futinele
curumins@fortalnet.com.br