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Edisca

A Edisca parte da idéia de que a arte é a ferramenta mais poderosa no desenvolvimento pessoal e comunitário, e que por isso deve ser o eixo do trabalho com meninos e meninas excluídos. No entanto, o projeto não se limita à arte, mas também inclui um projeto integral de saúde, desenvolvimento familiar e educação.

Do mesmo modo que o Projeto Axé e o Colegio del Cuerpo, a Edisca tem aprendido que a dança é uma técnica quase milagrosa para reconstruir o corpo e a auto-estima de uma criança vítima da violência e da exclusão. As meninas e meninos (tradicionalmente, a maioria dos participantes eram meninas, mas atualmente muitos meninos também participam) vêm à escola de dança em um dos bairros mais prestigiados da cidade para aprender a arte da dança e a arte de viver. Chegaram a ter uma presença artística no bairro, na cidade e no cenário internacional. E viajam regularmente para a Alemanha, Franca e Itália.

Por que a dança? A resposta mais fácil é porque a diretora e o diretor artístico são bailarinos. No entanto, mais importante ainda é saber que com a dança se pode alcançar a reconstrução do corpo. Há uma disciplina necessária para se dançar bem, mas não é uma disciplina opressora (ou melhor, não é opressiva na Edisca), mas sim uma disciplina que abre possibilidades. A dança pode ser vista como uma metáfora da vida: é preciso trabalhar e sofrer para alcançar algo importante. Da mesma forma, a dança gera uma postura orgulhosa que deixa para traz o corpo do “pobrezinho”.

O balé da Edisca não é folclórico, mas sempre inclui elementos da cultura do Ceará e de Fortaleza para educar os bailarinos e o público.

Todos os dias, os alunos e alunas atravessam a cidade para chegar à escola. Diante da pergunta “por que não instalar a escola numa comunidade carente?” há três motivos que geram resposta:

  1. Todo mundo fala dos direitos de trânsito e de associação, mas os pobres não têm esse direito porque não sabem como se locomover pela cidade e porque não são bem-vindos nos bairros ricos. Por situar a escola em um bairro rico, a Edisca permite a realização do direito de trânsito e da participação em todos os espaços urbanos.
  2. Os ricos querem se esquecer da existência dos pobres. A Edisca, por estar no bairro mais “chic”, está forçando os ricos e poderosos a reconhecer que a pobreza existe. Também, quebra o paradigma do “pobrezinho”, porque os ricos acabam conhecendo crianças orgulhosas e capazes. No princípio houve muita resistência e muito medo de que a escola pudesse baixar o preço dos bens imóveis, mas agora os ricos enchem o teatro durante a apresentação das obras e o valor da propriedade subiu.
  3. E por último, é uma questão de conscientização. A Edisca pode ensinar muito ao público através dos espetáculos e, certamente, ninguém virá a um teatro localizado em uma favela. O primeiro passo da integração das crianças excluídas deve acontecer em uma terra segura.

Os alunos e alunas vêm de comunidades muito pobres. Os pais, em sua maioria, são pescadores ou desempregados, e há altas taxas de violência e abuso familiar. O alcoolismo é um dos maiores problemas, embora o problema das drogas ainda não tenha chegado com força à Fortaleza, porque as gangues não têm aqui o poder que têm no Rio ou em São Paulo.

Muitos alunos vêm da favela mais pobre e perigosa de Fortaleza, Bom Jardim. É uma comunidade cercada pela pobreza e pela violência. Desta forma, vir a um bairro com meninos e meninos de outras culturas é uma maneira de aprender sobre a diferença e sobre as outras culturas. Assim, todos podem observar que o mundo não é igual, e que há muito para aprender e ensinar sobre esta diversidade.

Dado que as escolas das comunidades onde vivem os alunos e alunas são muito pobres, o reforço escolar é uma parte fundamental do trabalho da Edisca. Há sete professores que ensinam em três níveis. Não são séries de estudo, com anos ou idades definidas, mas sim grupos onde meninos e meninas com a mesma habilidade (não importando a sua idade), podem aprender juntos. E passam para o nível seguinte quando estão prontos, e não quando o ano termina.

A educação em letras não é apenas alfabetização, mas também ensinar como fazer uma leitura do mundo. Os bailarinos e bailarinas aprendem a interpretar suas danças e as danças dos outros, e depois usam estas capacidades para ler o mundo: O que quer dizer a geografia excludente da cidade? O que expressa a roupa de uma menina rica, ou de um membro de uma gangue? Também, passam a usar essas técnicas de leitura em seus livros e outros textos: a Edisca possui uma boa biblioteca que é administrada por uma profissional com a ajuda de alunas responsáveis, e sempre há uma fila para pedir livros. Uma pesquisa mostrou, surpreendentemente, que os alunos da Edisca lêem mais que um aluno universitário!

A educação também integra as famílias dos alunos. Mães e pais vêem a Edisca para aprender a escrever e para ter acesso a várias formas de trabalho manual. Quando meninos, meninas, pais e mães vêem que todo mundo está trabalhando para seguir adiante, a experiência se torna mais forte entre todos. As mães e pais recebem dinheiro para o transporte e uma refeição, além de estarem aprendendo a usar o sistema de transporte da mesma forma que aprendem seus filhos.

Há alguns anos, quando algumas alunas desejaram ir para a universidade, a Edisca lhes ofereceu um curso pré-vestibular de um ano. Algumas delas tiveram êxito, no entanto, os professores se deram conta de que o trabalho realizado em um ano era muito intenso. Por isso, atualmente há aulas constantes para que todos possam se preparar para o ingresso na universidade e para a própria vida. Neste momento, há alunas graduadas neste curso pré-vestibular que estudam em universidades públicas e particulares. Outras, já são educadoras da Edisca e servem de modelo para os estudantes atuais.

A Edisca recebe grande parte de seu orçamento através de fundações internacionais, mas quase 18% disso vem da venda de entrada dos espetáculos. Este dinheiro também vai para uma conta especial de emergência “se por acaso... o que aconteceu na Argentina não aconteça aqui!”. Além disso, foram iniciadas as vendas de CDs e vídeos.

Um dos projetos mais interessantes da Edisca é a “residência social”, inspirado na residência que os médicos fazem em um hospital. Os educadores de ONGs, OGs e outros programas vêm a Edisca para aprender como implementar um projeto de dança ou arte em seus programas. A residência social possui três elementos: teoria, experiência da Edisca e implementação de base. A Edisca acompanha todas as etapas do projeto e coordena um projeto de educação à distância através da Internet.

Hoje em dia, a Edisca serve a 400 meninas e meninos em risco de situação de rua, com um pessoal de 40 educadores, professores de baile, psicólogos e médicos.

Edisca
Rua Desembarcador Feliciano de Ataíde 2309
Agua Fria, Fortaleza, Ceará 60821 420
Brasil

85 278 1515

Contactos: Directora General, Dora Andrade. Director Artístico, Gilano Andrade
edisca@edisca.org.br


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